meistudies, 4º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - Reflexões sobre o ecossistema midiático pós pandemia

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As 500 mil mortes pela Covid-19 em dois telejornais brasileiros: uma análise a partir da dramaturgia do telejornalismo no Jornal Nacional e no Repórter Brasil
José Tarcísio Silva Oliveira Filho, Simone Teixeira Martins, Gustavo Teixeira Pereira

Última alteração: 2021-10-18

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)

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Em 19 de junho de 2021, um sábado, o Jornal Nacional, telejornal produzido pela TV Globo, recorreu a um editorial para tornar pública sua opinião a respeito da gestão da pandemia da Covid-19 no Brasil. O uso do formato, pouco recorrente pelo programa, teve uma justificativa: o registro de meio milhão de mortos pela doença no país. Situação distinta foi identificada na TV Brasil, emissora considerada pública pela Empresa Brasil de Comunicação. Sem edição no sábado, na segunda-feira, dia 21, abriu o Repórter Brasil com uma longa entrevista com o então Ministro da Saúde, sem sequer mencionar as 500 mil mortes.

A presente pesquisa realiza uma análise comparativa envolvendo os dois telejornais com o intuito de identificar as diferenças de abordagem na cobertura sobre o acontecimento das 500 mil mortes pela Covid-19. Para isso aciona-se duas discussões teóricas: o conceito de dramaturgia do telejornalismo de Coutinho (2006) e estudos sobre a economia política da comunicação (JAMBEIRO, 2008; OTONDO, 2002). A perspectiva da dramaturgia do telejornalismo considera que um dos principais atributos que permite a conversão de um acontecimento social em uma narrativa jornalística é a existência de um conflito com a eventual identificação de seus personagens (COUTINHO, 2006, p. 107). Nesse sentido, a observação da figuração dos personagens (as vítimas, os políticos, os gestores, os médicos) e a própria temática (a pandemia), pode-se dar por meio da identificação do conflito social narrativo na notícia, que se caracteriza pela complexidade, intensidade e resolutividade (COUTINHO, 2006, p. 112).

Já os estudos sobre a economia política da comunicação fornecem elementos que permitem refletir sobre fatores estruturais que perpassam pelas emissoras que produzem os telejornais. Conforme Jambeiro (2008), existem três modelos de emissoras de radiodifusão no Brasil: a comercial, a estatal e a pública. A primeira consiste em estações cuja propriedade é de grupos empresariais e/ou pessoas físicas, como é o caso da TV Globo. Já o modelo público pode possuir financiamento governamental, mas deve ter independência editorial – a TV Brasil foi criada com essa proposta em 2007, apesar de constantes violações ao longo dos últimos anos ao seu caráter público. “A televisão pública é diferente, porque identifica carências, setores, necessidades, particularidades, e procura satisfazê-los [...] procura satisfazer segmentos de público, e não o mercado ” (OTONDO, 2002, p. 285).

Em termos metodológicos, a pesquisa realiza uma adaptação das matrizes de análise da qualidade de Oliveira Filho & Coutinho (2017), permitindo analisar se as narrativas informativas audiovisuais cumprem requisitos qualitativos e éticos, conforme as próprias normas editoriais das emissoras. Entre as categorias analisadas estão: 1) veracidade da informação/apuração; 2) contextualização da informação; 3) pluralidade, diversidade e regionalismo; e 4) educação, serviço e autonomia. Ainda reflete-se sobre os conflitos narrativos que perpassam pela notícia, com base no conceito da dramaturgia do telejornalismo.

Entre os resultados, observa-se a disparidade no tratamento da temática. Enquanto o Jornal Nacional posiciona os políticos gestores como vilões, o Repórter Brasil permite uma interpretação enquanto heróis: aqueles que tentam solucionar a crise oriunda da pandemia. Assim, o conflito social narrativo também é distinto entre os telejornais, visto que o Jornal Nacional traz para o centro do conflito a má condução do Governo Federal na pandemia. Já o Repórter Brasil, tenta mostrar o lado positivo do momento, criticando a abordagem “pessimista” da imprensa e os grupos opositores. A distinta conduta possibilita reflexões sobre o caráter público da TV Brasil.


Palavras-chave


Telejornalismo; Pandemia; Repórter Brasil; Jornal Nacional.

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