meistudies, 3º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - Democracia, meios e pandemia

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A pandemia, o pessoal e o político – os impactos do confinamento na agenda de um grupo de formação para os feminismos
Larissa Maues Pelucio

Última alteração: 2021-01-05

Resumo


 

No fim do inverno europeu de 2020, o governo francês instituiu a quarentena (L'interdiction de déplacement) no país como medida sanitária contra a pandemia de Covid-19. Essa decisão afetou a agenda de debate de um grupo feminista composto por brasileiras residentes em Paris chamado Fridas e a Resistência (nome modificado a fim de preservar o anonimato das integrantes). Nesta comunicação procura-se compreender o potencial de novas formas de se fazer política trazidas pelas mídias digitais, concentrando a análise no cenário disruptivo da pandemia. Para tanto tomamos como unidades coletiva de análise o grupo Fridas e a Resistência, nascido na/da articulação mediada pelas redes sociais digitais.

O grupo Fridas e a Resistência aglutinou por meios digitais mulheres brasileiras que estavam na França pela mobilidade acadêmica, fazendo estudos de pós-graduação, se articularam  a fim de enfrentarem o  “discursos abertamente autoritários, anti-humanistas e antidemocráticos” (BALLESTRIN, 2018, p. 149) que formavam a plataforma política de Jair Bolsonaro, naquele momento disputando as eleições presidenciais de 2018. A mobilização dessas estrangeiras passava pela percepção que, mesmo distantes do Brasil podiam se valer das redes sociais digitais e de aplicativos móveis de conversas para se organizarem em torno do rechaço à plataforma conservadora de Bolsonaro. Apostaram para isso no vocabulário político dos feminismos.

A internet causou uma revolução em relação à comunicação, e o feminismo não demorou a chegar com força na internet. Nunca antes no mundo se experimentou a comunicação global e rápida como experimentamos hoje e, devido às peculiaridades da explosão do feminismo dentro desse contexto, já possível afirmar com segurança que estamos vivendo um momento de quarta onda do feminismo. (SILVA, 2019, posição 369 de 719, Kindle).

 

É nesta quarta onda que se localiza o grupo aqui estudado, o qual se formou motivado por pautas macrossociais como as eleições presidenciais de 2018 no Brasil e uma agenda anticapitalista. Desde sua formação o grupo realizou mais de 30 encontros, além de participações em eventos feministas como o Oito de Março e aqueles que reuniram personalidades políticas brasileiras alinhadas às pautas da esquerda.

No início de 2020 as administradoras do grupo consideraram que as Fridas já tinham alcançado maturidade como coletivo e que chegara o momento de “estabelecer os nossos objetivos pessoais e de grupo” a partir do questionamento “como vivo o feminismo e como quero impactar a sociedade”. Agenda que não chegou a se estabelecer devido à chegada da pandemia e pelos efeitos emocionais que o confinamento rigoroso adotado na França provocou nas integrantes do grupo. Mas, se os dois prolongamentos do confinamento (15 de abril; 11 de maio) contribuíram para abalar o ânimo político do grupo, foram também estas medidas decisivas para que as administradoras do coletivo repensassem a agenda do coletivo e retomassem por meios digitais as reuniões. Assim, em meio a tensões internas e fragilidades emocionais, as Fridas buscaram recursos dentro e fora do grupo para reelaborar a pauta dos debates e retomarem as reuniões no modo remoto.

Tomamos o que se passou com o coletivo Fridas como um estudo de caso que pode ser estendido a outros grupos que tiveram de repensar estratégias de mobilização diante da crise que afetou a todas e todos, ainda que de forma distinta e desigual. Foi interessante perceber como durante os 55 dias de confinamento a agenda de luta do grupo foi se reorganizando no sentido de reavivar temas clássicos dos debates feministas como a violência doméstica; a naturalização do cuidado como tarefa feminina; o direito ao prazer sexual, agora realocados no cenário da pandemia.

Pretendemos discutir como nesse momento de crise sanitária, política e econômica os coletivos de resistência, sobretudo os feministas, estão respondendo ao cenário de isolamento social que, ao mesmo tempo em que represa agendas de luta e ameaça conquistas, obriga a pensar em outras estratégias de mobilização. No caso do sujeito desta pesquisa, tem sio interessante notar como os temas históricos do movimento feminista voltam a ser acionados como conceitos-chave para a articulação destas estratégias.

 

Referências bibliográficas

BALLESTRIN, Luciana. O Debate Pós-democrático no Século XXI. Revista Sul-Americana de Ciência Política, v. 4, p. 149-164, 2018.

 

SILVA, Jacilene M. Feminismo na atualidade: a formação da quarta onda. Recife, Publicação Independente, Kindle. 2019.

 


[1] Doutora em Ciências Sociais, professora de Antropologia – UNESP – FAAC. Pesquisadora Produtividade 2 – CNPq. E-mail: larissa.pelucio@gmail.com.


Palavras-chave


Coletivo feminista; Pandemia Civid-19; Agenda política; internet e democracia

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