meistudies, 3º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - Democracia, meios e pandemia

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Intermedialidade e Afeto: estratégias de engajamento na trilogia d’As Mil e Uma Noites
Thalita Cruz Bastos

Última alteração: 2020-11-11

Resumo


A produção audiovisual contemporânea tem buscado formas diferentes de tratar do visível e do enunciável, mudando as relações com o representável e consequentemente suas formas de percepção. Nesse contexto a intermedialidade se configura como um conceito importante para elucidar as relações existentes entre produção de afeto e narrativa fílmica. Lúcia Nagib relaciona a noção de cinema impuro proposta por André Bazin e as características do regime estético da arte apresentadas por Jacques Rancière a fim de discutir as “políticas da impureza” relacionadas a um cinema intermidiático e suas possibilidades políticas.

A principal reflexão está em como a contaminação de diferentes formas artísticas pode ser incorporada aos filmes, tornando-os impuros, dissolvendo fronteiras entre gêneros cinematográficos, bem como a representação de sexo, gênero e raça nos filmes. Esses múltiplos níveis de elementos representacionais não apenas aproximam a relação entre arte e real, mas também ressignifica o real e as suas percepções. Um cinema impuro refere-se à um meio contaminado por outras formas artísticas, como teatro, música, dança e pintura. Uma perspectiva intermidiática do cinema nos permite analisar as potências de impureza na produção cinematográfica e como os filmes podem desviar dos limites estabelecidos pela mise-en-scène tradicional.

A ideia de uma arte ultrapassa seus próprios limites e combina-se com outros meios se relaciona diretamente com a habilidade do cinema de desafiar padrões representacionais e negociar o seu escopo político. Relações intermidiáticas no cinema são inerentemente perturbadoras e pensar em todas as possibilidades combinatórias entre fotografia, teatro, música, literatura e mesmo jornalismo é reconhecer o potencial de engajamento afetivo existente quando diferentes mídias se encontram e se combinam de múltiplas formas. Essas contaminações corroboram a emergência de um “cinema expandido” onde gêneros cinematográficos não são mais um limite, mas meios para produzir uma experiência cinematográfica mais adequada, que pode ser ressignificada através de ilimitadas interações entre imagens.

A trilogia d’As Mil e Uma Noites, de 2015, se caracteriza por um conjunto de filmes que embaralham claramente as fronteiras entre documental e ficcional, realismo e fantasia. Miguel Gomes, cineasta português, inspira-se no livro As mil e uma noites para contar histórias de Portugal contemporâneo, criando um espaço fílmico complexo, no qual personagens ficcionais e habitantes de diversas regiões dos países se encontram para tentar responder as demandas desse momento conturbado na história de Portugal. Os filmes de Miguel Gomes colocam o espectador num lugar ativo, no qual é necessário responder o filme de alguma forma, estar aberto para as impressões e sensações produzidas e despertadas pela imagem.

Nesse artigo propõe-se refletir sobre as noções de intermedialidade apresentadas por Àgnes Pethö e Lúcia Nagib, além de aprofundar no conceito de dissenso proposto por Jacques Rancière ao discutir as relações entre arte e política no regime estético da arte. Com essa base é possível estabelecer conexões entre intermedialidade e performance, e intermedialidade e afeto. Através desse percurso busca-se elucidar as proximidades entre intensidades narrativas e as formas dissensuais, existentes em obras críticas como a trilogia d’As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes. Através da análise da trilogia é possível desenhar a conexão existente entre dissenso e produção de afeto, produzindo eventos afetivos-expressivos na tessitura narrativa e desencadeando as potencialidades de engajamento sensório-sentimental na relação do espectador com a obra de arte.

Palavras-chave


intermedialidade; afeto; dissenso; cinema português

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