meistudies, 2o Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - O protagonismo da narrativa imagética

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Música eletroacústica na imagem: ruídos, sínteses e manipulações
Vanderlei Baeza Lucentini

Última alteração: 2019-09-17

Resumo


Este artigo realiza um olhar panorâmico sobre a influência da música eletrônica nas artes do vídeo através da invenção de sintetizadores e processadores de imagens. Embora a literatura referencial relacione a produção de vídeo e, por extensão a videoarte, como propriedade de artistas visuais que buscaram o movimento de suas imagens ao longo do tempo, é digno de nota mencionarmos a presença de alguns músicos nesse contexto histórico. Ao realizarmos uma pequena cartografia na história da videoarte percebemos a presença de muitos protagonistas que iniciaram as suas carreiras como músicos. Alguns tiveram formação em música erudita e exerceram a profissão como músicos ou compositores antes de voltar sua atenção para o trabalho com imagens em movimento. Por exemplo, Nam June Paik foi compositor de música experimental e eletrônica, Steina Vasulka teve sólida formação em violino clássico e Robert Cahen é compositor de música eletroacústica. Outros artistas não tiveram uma formação acadêmica formal, mas estabeleceram uma relação de trabalho com a música. Tony Conrad participou do Theatre of Eternal Music ao lado de La Monte Young e John Cale; Bruce Nauman relaciona suas ideias sobre o tempo influenciadas pela música de Steve Reich e Philip Glass; as concepções sonoras e espaciais dos trabalhos audiovisuais de Bill Viola afloraram durante o período em que participou do grupo experimental Composers Inside Electronics onde realizou a instalação Rainforest ao lado do pianista e compositor David Tudor. Fortemente influenciados pelas estratégias do fazer musical esses protagonistas da videoarte, agora encarando as novas ferramentas visuais, realizaram suas primeiras obras tendo como suporte a herança musical que rompeu com os paradigmas do audiovisual, excessivamente orientado pelos “visualistas” e criaram uma estética intermídia que tem caracterizado os trabalhos de muitos artistas audiovisuais no presente e no futuro.

A influência e o impacto das ideias e técnicas desenvolvidas na música eletrônica podem ser constatados numa afirmação do criador da videoarte Nam June Paik ao dizer que “a nova década de televisão eletrônica deve seguir o caminho trilhado pela década passada na música eletrônica”. A veracidade dessa afirmação se constata na estreita conexão entre algumas tendências das vanguardas musicais nas proposições conceituais de alguns artistas da videoarte que notaram que o meio eletrônico tem como matéria-prima a energia pura e o ruído. O videoartista britânico Peter Donebauer declarou que o aspecto principal do vídeo não era a câmera, mas o sinal eletrônico. O criador da música concreta Pierre Schaeffer colocou o ruído na agenda da música contemporânea e seu colaborador, o videoartista Robert Cahen (1945) notou linhas de similaridade entre a manipulação de imagens no vídeo após a gravação com as técnicas de manipulação de ruídos utilizadas pelos compositores da escola schaefferiana. No início dos anos de 1960, os pioneiros Robert Moog e Donald Bucla iniciam a produção dos primeiros sintetizadores analógicos de áudio que, por sua maleabilidade, foram imediatamente aplicados aos processos de produção sonora em diversos estúdios de música eletroacústica e eletrônica.

A experiência musical mostrou o caráter maleável e amigável dos sintetizadores e processadores sonoros já utilizados na live electronics [eletrônica viva], quase uma década depois, mostrou um novo caminho aos artistas visuais e engenheiros de telecomunicação que começaram a construir os primeiros sintetizadores de vídeo partindo da premissa de que os mesmos processos eletrônicos analógicos que produziam sinais de áudio poderiam produzir sinais de vídeos. Entretanto, o processo de síntese imagética é mais complexo que o similar sonoro, pois os sinais de vídeo cobrem um espectro de frequência 100 vezes maior que o áudio e são construídos de acordo com um processo de sincronização complexo que não ocorre no áudio. Após equacionar as questões tecnológicas iniciou-se o processo de construção de sintetizadores de vídeo cada vez mais sofisticados na geração de imagens abstratas ou distorcidas que permitiam, eletronicamente, manipular sinais ou raios catódicos do tubo de televisão. Em linhas gerais, vídeo sintetizador pode ser definido como “um termo genérico para um sistema eletrônico modular que pode gerar e/ou alterar a imagem de vídeo em tempo real”.

Dentro desse panorama, o artigo propõe relacionar a importância da música eletrônica erudita com algumas iniciativas referenciais como a presença de sintetizador e processador de imagens de Nam June Paik e Shuya Abe, as influências da música concreta e a utilização do sintetizador EMS Spectron na obra do compositor de música eletroacústica Robert Cahen; as imagens abstratas do Direct Video Synthesizer do compositor americano Stephen Beck; as pinturas eletrônicas de Bill Viola, entre outros. No contexto contemporâneo, mostrar que o trabalho experimental e pioneiro realizado por esses compositores incentivaram o surgimento de uma série de softwares, que ocuparam o lugar da maquinaria eletrônica, introduzidos inicialmente para a composição musical e posteriormente utilizados no audiovisual em tempo real, como os softwares livres Pure Data [Pd] e Processsing, os softwares proprietários Max/MSP/Jitter e Isadora.


Palavras-chave


Música Eletroacústica; Videoarte; Performance Audiovisual; Audiovisões

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