meistudies, 1º Congresso Iberoamericano sobre Ecologia dos Meios - Da Aldeia Global à Mobilidade

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Um olhar para aquele que escreve e seleciona notícias: narrar na contemporaneidade e o jornalismo
Jaqueline Frantz de Lara Gomes, Fabiana Piccinin

Última alteração: 2019-04-04

Resumo


Qual é a importância de estudar narrativas? Fáticas ou ficcionais, as narrativas produzem sentidos e constituem a realidade (MOTTA, 2013). Então, se a narrativa deriva da necessidade de compreender o mundo em que se vive (RESENDE, 2009), observamos que as narrativas jornalísticas, resguardadas suas especificidades, também são uma forma de conhecimento da realidade. A narrativa produz vínculo entre a experiência de existir e garantir a condição de verdade do fato, característica essa que, entre outros procedimentos, pode ser atribuída ao narrar jornalístico. Então, podemos pensar a experiência da vida ao narrar contemporâneo e suas múltiplas formas e plataformas. Segundo Resende (2007), o estudo acadêmico do jornalismo se concentra, principalmente, na questão da técnica de produção de conteúdo e nas técnicas de discurso. Contudo, contemporaneamente, o estudo da narrativa passou a também abranger a compreensão do jornalismo como prática discursiva, que contribui no entendimento das práticas jornalísticas como formas de contar histórias. Sendo assim, nossa proposta de investigação é uma aproximação à pesquisa de tese de doutoramento, neste caso com olhar para aquele que narra, o jornalista. Dessa forma, pretendemos relacionar teorias a respeito do narrador, com base em Benjamin (1987), traçando paralelos entre as configurações da sociedade e o exercício de narrar da Modernidade e na Pós-modernidade que, aqui, vamos mencionar como contemporâneo. Especialmente, dar atenção a queda das grandes metanarrativas (LYOTARD, 2004), nesse contexto de análise. O objetivo, assim, é lançar luz a novos contornos do narrar do jornalístico contemporâneo em contraste com a hipermodernidade (LIPOVETSKY, 2002), a liquidez e o capitalismo tardio (BAUMANN, 2001; JAMESON, 1997; SANTAELLA, 2003). Vejamos que nos dizeres de Motta (2013) e de Sodré (2009) um tensionamento acerca da notícia como narrativa. Para o primeiro, a notícia é narrativa não de forma isolada, já o outro diz que a notícia em si, é uma narrativa. Enquanto Sodré postula a experiência a partir de uma multiplicidade de relatos, não necessariamente a partir da experiência do narrador, Motta sublinha a necessidade do contexto. Para Motta (2013) as narrativas não podem ser analisadas isoladamente para cumprirem certas finalidades situacionais, sociais e culturais. Esse tensionamento é oportuno para as nossas discussões acerca das práticas jornalísticas no contemporâneo. A partir do exposto, reforçamos que é oportuno dar foco à figura do narrador, voltando a mencionar os postulados de Benjamin (1987) e também de Santiago (2002) que, ao se referir ao narrador pós-moderno, sublinha que a falta da experiência vivida dá lugar à experiência do olhar. Dessa forma, aquele que é observado ganha evidência na narrativa midiática, pois “o narrador que olha é a contradição e a redenção da palavra na era da imagem. Ele olha para que seu olhar se recubra de palavra, constituindo uma narrativa.” (SANTIAGO, 2002, p. 59). Além do mais, feito esse levantamento, pretendemos direcionar esse aporte teórico com as pesquisas acerca do jornalista como aquele que seleciona as notícias dadas ao conhecimento do público. Contemporaneamente, trata-se de uma passagem do gatekeeping para a estratégia de gatewaching (BRUNS, 2005). Ou seja, frente a uma abundante oferta de narrativas postas em circulação especialmente a partir da internet e dos dispositivos móbiles, nossa intenção é mostrar como o jornalista agora é responsável por selecionar aquelas notícias ou conteúdos que, em tese, são os que mais interessam à audiência. Em outras palavras, até pouco tempo o jornalista era aquele que produzia e distribuía as informações ao público de dentro de uma redação institucionalizada. Era o gatekeeping, com poder determinante sobre aquilo que chegaria ou não à audiência. Contudo, percebe-se, contemporaneamente, que com a facilidade de produzir e fazer circular informações, especialmente em rede, o jornalista não tem mais o poder preponderante de antes. Por outro lado, podemos notar práticas se destacam quando os jornalistas, a partir de práticas colaborativas – gatewatching -, passam a selecionar e ofertar as narrativas consideradas aquelas que traduzem com mais qualidade a realidade dos fatos com o intuito de auxiliar a sociedade na compreensão do mundo. Podemos ainda dizer que essa prática jornalística pode ser encarada como uma tentativa de “sedução” do público. Sendo assim, vamos considerar também postulados sobre narrativas que ofertem sentidos, efeito de real, aproximação entre o fato narrado e aquele que lê (JAGUARIBE, 2009; ZIZEK, 2003).


Palavras-chave


Narrador; Jornalismo; Internet; Gatewatching

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