meistudies, 2º Congresso Ibero-americano sobre Ecologia dos Meios - Mulher e Gênero no Ecossistema Midiático

Tamanho da fonte: 
O aborto na Imprensa Alternativa e no Planalto: um debate sobre a cobertura da Revista AzMina e sua repercussão no Governo Federal
Nayara Kobori, Ana Cristina Consalter Amôr

Última alteração: 2020-03-23

Resumo


A historiografia dominante encara o fazer jornalístico como uma invenção masculina, percebendo a história da profissão, bem como os seus relatos, como reflexo da experiência de homens, majoritariamente letrados e pertencentes a uma determinada classe social (Covert, 1981). Apesar disso, as mulheres sempre se fizeram presente – de modo mais ou menos invisível – do desenvolvimento dos jornais e já no período oitocentista buscavam espaço para que suas ideias pudessem entrar no jogo das disputas simbólicas (Casadei, 2011).

Além da própria participação das mulheres, Woitowicz (2008) destaca o reconhecimento de uma cultura do consumo, baseada em imagens estereotipadas do corpo feminino, ligadas ao ideal de beleza e aos papeis de esposa/mãe. Como consequência da ampliação das discussões feministas, percebe-se o papel da mídia na produção e representações de gênero e, com isso, grupos de mulheres passaram a criticar a propagação de valores que reforçam a desigualdade entre gêneros a ideologia hegemônica (Woitowicz, 2008).

Assim, as mulheres passaram a atuar de forma mais intensa na produção de conteúdo, movidas por redes de colaboração e impulsionadas pelo avanço da internet. Nesses espaços, houve a ampliação dos materiais de comunicação produzidos pelas e para as mulheres, especialmente por grupos feministas, que não encontram abertura na mídia convencional (Veloso; Cunha; Rebouças, 2011).

Nesse contexto, surge a Revista AzMina, criada em agosto de 2015 pela jornalista Nana Queiroz, com o objetivo de dar voz para o grupo de mulheres e temáticas muitas vezes negligenciados pela imprensa em geral. Formada por uma rede de colaboradoras, a Revista está disponível online, tendo como foco o jornalismo investigativo.

Em 18 de setembro de 2019, a Revista publicou uma reportagem intitulada: “Como é feito um aborto seguro?”, produzida pela repórter Helena Bertho e com edição de Thaís Folego[1]. Na reportagem, a revista traz informações sobre o aborto no Brasil, como é feito o passo a passo em um país onde ele é legalizado, como é o atendimento pró-aborto no Brasil e quais são os métodos contraceptivos. O conteúdo está detalhadamente explicado no corpo do texto e exposto em infográficos que ajudam a destacar pontos considerados mais importantes.

Após a publicação da reportagem, a revista AzMina passou a ser atacada e acusada nas redes sociais de cometer um crime, depois de pronunciamento da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, em sua rede social. A ministra diz que a revista fez apologia a um crime e afirmou que abriria denúncia contra o veículo. No dia 23 de setembro, no ataque à revista, os posts nas redes sociais foram enviados centenas de vezes para os perfis do presidente Bolsonaro, da ministra Damares, do ministro Moro, da Polícia Federal, do Ministério Público e de pessoas públicas.

Antes disso, no dia 20 de setembro, a revista AzMina já havia se posicionado em relação ao pronunciamento de Damares, afirmando que teria feito “o bom jornalismo”, “com as melhores fontes de informação”, usufruindo de “um direito garantido pela liberdade de imprensa e previsto na Constituição Brasileira e essencial para o funcionamento da democracia”. Bruxel (2017, p. 249) explica que, chamadas a se posicionar, as pessoas levam esses temas polêmicos para a pauta de conversações do dia a dia.

Através da análise de conteúdo, então, considerando o assunto como um debate público, diante do papel da mídia e da repercussão do assunto, impulsionado pela crítica de uma representante do governo federal, é possível argumentar que enquanto a Revista AzMina tem potencial para contribuir para o debate público e representar as necessidades sociais do público feminino, dando substancialidade ao assunto, a Instituição Governo, que também teria o dever contribuir, representada pela figura da ministra, até dá calor ao debate, mas sem a contextualização e profundidade necessárias.


[1] Conteúdo disponível em: https://azmina.com.br/especiais/como-e-feito-um-aborto-seguro/. Acesso em 20 de jan. de 2020.


Palavras-chave


Revista AzMina, Aborto, Mídia, Feminismo, Governo.

Texto completo: PDF