meistudies, 2º Congresso Ibero-americano sobre Ecologia dos Meios - Mulher e Gênero no Ecossistema Midiático

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Redes Sociais e Educadoras Feministas: movimentações, contra-ataques e práticas de resistir na internet
Carla Luzia de Abreu

Última alteração: 2020-03-11

Resumo


Este texto surge em meio às tensões e conflitos deflagrados a partir da posse, em janeiro de 2019, de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil, cujo perfil está ancorado na ala direita mais conservadora dos partidos políticos atuais. Com um projeto político entrelaçado com questões morais diversas, a eleição de Bolsonaro foi uma das etapas de desconstrução dos projetos sociais dos governos anteriores, cuja etapa inicial resultou no golpe que depôs a primeira mulher presidenta da República, Dilma Rousseff, em agosto de 2016.

O atual Ministro da Educação, Abraham Weintraub, ocupante de uma das pastas mais importantes do país, diz pretender acabar com as “ideologias” na educação e é responsável por mudanças nas políticas de financiamento e gestão de toda a Educação Básica – como as alterações nos conteúdos e distribuição dos livros didáticos –, até o funcionamento operativo das Universidades Federais públicas, acusadas por Weintraub de fazer "balbúrdia", terem "plantações de maconha" e serem "laboratórios de drogas", com ataques frontais e comentários de desprecio a toda comunidade docente da rede educacional.

Um conjunto amplo de fatos ocorridos desde que tomou posse, o governo de Jair Bolsonaro não deixa dúvidas quanto à forte misoginia que marca os eventos no âmbito do exercício de poder político e econômico. Seu governo, segundo dados publicados pela ONU em um estudo realizado a cada dois anos, tem um dos piores índices de participação feminina no Executivo entre todos os países do mundo, com apenas duas ministras entre 22 pastas.

Centrado em práticas abertamente machistas, heteronormativas e racistas que, embora não formalmente autorizadas, são instigadas pelo presidente eleito, as tensões acentuaram-se sensivelmente no contexto da educação pública e da produção artística e cultural, circuitos nos quais tenho atuado como educadora e pesquisadora do ensino universitário. Diante desta reconfiguração antidemocrática acentuou-se as tensões e inquietações entre as e os educadores que abruptamente viram-se proibidos de discutir temas que envolvam a diversidade em sala de aula, seja temáticas que abordam gênero e sexualidade, ou as que promovem as práticas feministas, consideradas contrárias às bases religiosas ultra conservadoras que conformam, hoje, o sistema educacional brasileiro.

Nesse cenário de perseguição e vigilância sobre as práticas docentes e os conteúdos ministrados, educadoras e educadores tomados pelo pânico deletaram suas contas das redes sociais, ou pararam de postar comentários críticos sobre o contexto político. Passado o susto inicial e contrariando as pretensões políticas atuais de silenciamento, muitas professoras, particularmente as que já desenvolviam abordagens feministas nas formas de trabalhar os currículos, encontraram nas redes digitais espaços para tratar de assuntos considerados “inapropriados” no ambiente de ensino formal e transformaram-nos em lugares de debates e denúncias, amplificando as possibilidades metodológicas fora dos espaços convencionais de educação. Essas mulheres sabem que não estão a salvo nos espaços digitais e “estar” nesses canais requer a mesma coragem que sempre foi requisitada às feministas, hoje e outrora, pois a perseguição e os micro poderes continuam a agir no panóptico digital.

Professoras como Dolores Aronovich, mais conhecida como Lola Aronovich, da Universidade Federal do Ceará, ou Rosana Pinheiro-Machado, autora do livro "Amanhã vai ser maior" (2019), entre muitas outras, conhecidas ou não, professoras da Educação Básica e do Ensino Superior, utilizam as redes sociais para compartilhar suas visões individuais sobre o cenário político brasileiro e suas experiências educacionais, além de publicar suas reflexões sobre o machismo e o autoritarismo que se intensificou no sistema educacional e nas práticas cotidianas em geral. Grande parte do esforço dessas professoras centra-se em problematizar a opressão e a violência baseadas em gênero, bem como fomentar linhas e formas de ação no debate feminista contemporâneo por meio dos canais digitais.

As análises desenvolvidas no texto se apoiam em referencias teóricos do campo da filosofia e da educação, bem como nas proposições de professoras atuantes nas redes sociais e que ajudam a pensar em novos modos do “fazer docente”, a partir de práticas feministas que são retroalimentadas na internet e fazem frente ao anacronismo das tendências neoliberais na educação brasileira. O objetivo é, portanto, responder a esse cenário complexo de tensões, examinando as potencialidades das práticas feministas adotadas por professoras nas redes sociais que exercitam a resistência, a infiltração e a apropriação crítica sobre o contexto educacional contemporâneo brasileiro.


Palavras-chave


Práticas Feministas; Educação; Redes Sociais

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