meistudies, 2º Congresso Ibero-americano sobre Ecologia dos Meios - Mulher e Gênero no Ecossistema Midiático

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#Comicsgate: o Portal do Inferno. Hastags da violência contra mulheres e a diversidade em mass media
karine freitas sousa

Última alteração: 2020-03-30

Resumo


O mundo da nona arte, quadrinhos ou comics, foi desde sempre sexista. Além das dificuldades enfrentadas pelas mulheres,  nas suas representações nos quadrinhos ou como autoras destes, surgiu recentemente nos Estados Unidos  uma  violência virtual específica.  A “#Comiscgate” é uma campanha/movimento de boicote abertamente contrário às mulheres e aos temas de representação da diversidade que têm sido abordados nos comics. Segundo seus adeptos, a atuação feminina na produção das artes gráficas, os assuntos feministas e/ou relacionados à diversidade fez com que a qualidade das histórias caísse e desagradasse a massa de leitores e fãs. Há registros de ataques virtuais contra mulheres, negros, gays e “tod@s”  quadrinistas cujas inclinações políticas sejam mais à esquerda.  Criada por um aficionado dos quadrinhos, o movimento ganhou volume e apoio de simpatizantes, onde se incluem quadrinistas famosos, homens, que sugeriram uma “lista negra” de artistas a serem boicotados. O #Comicsgate também tem adeptos entre as empresas produtoras de quadrinhos e os  lojistas (distribuidores/comerciantes). A violência do movimento está para além do discurso que inclui stalkers e haters que provocam ciberbulling: alcança as finanças e os espaços de atuação da mulher e dos integrantes da diversidade. Ao tempo em que as mulheres têm alcançado maior e melhor inserção no mercado quadrinístico, o #Comicsgate, guarda proximidade e relação com os  discursos e ideias do atual presidente norte americano, em consonância com a crescente onda de ódio e exclusão social vigente no mundo ocidental. O meio virtual, importante espaço de visibilidade e interação,  onde até então as mulheres podiam atuar mais livremente tornou-se um moderno campo de batalha. As novas formas de interação social, decorrentes das reconfigurações de mundo promoveram maiores dinâmicas mediante os usos das novas tecnologias. A internet é indispensável para a promoção de práticas e trocas sociais, com um alcance impossível de ser calculado, mas percebido pela multiplicidade de espaços virtuais onde ocorrem as trocas, as idéias e os axiomas (CASTELLS, 1999). A capacidade transgressora da arte acatou a reestruturação de sua produção, com soluções para transpor modelos e condições materiais na reprodução  das artes quadrinísticas. As artistas gráficas, em especial as mulheres, têm trabalhado o mundo das charges, ilustrações e quadrinhos com desenhos, cores e temáticas que não se distanciam da vida cotidiana e das realidades que vivemos. Com novos olhares sobre as questões de nosso  tempo, as artistas dos Comics criticam, satirizam, relativizam e provocam os leitores a desenvolverem uma percepção e um exercício de crítica social considerando a  perspectiva proposta por Spivak (2012) de dar voz aos sujeitos silenciados e subalternos. Assim, o mercado dos comics tem visto trabalhos que abordam questões feministas e de diversidade, principalmente no meio virtual. Pelas características de seus trabalhos, a recente análise das produções das artistas gráficas da América do Sul (SOUSA, 2017) denota proximidades com seus pares nos Estados Unidos. Na América do Sul as artistas se inserem na perspectiva de informantes nativas (SPIVAK, 2010). Os trabalhos destas artistas apóiam-se nas diferentes experiências femininas, e igualmente  tratam da diversidade no planeta. O mundo virtual possibilita que as trocas e diálogos transnacionais das artes quadrinistas não se limitem a fronteiras físicas. O alcance e divulgação dos comics decorrem das novas tecnologias e, também, das redes sociais existentes via internet. Urge, portanto refletir e relacionar as artes gráficas às discussões sobre violência de Gênero, e a um letramento transnacional, que compreenda a linguagem imagética  para o enfrentamento da violência de gênero em todas as suas formas, como novas estratégias de resistência. Anuindo que o movimento do “portal do inferno” pode alcançar por capilaridade, imitação e “viralização” os países Latino Americanos, inclusive o Brasil, como no passado na história dos quadrinhos (SOUSA, 2017), propomos o estudo do atual cenário.  Diante da violência de gênero e diversidade virtual  interessa-nos para esta análise considerar o ciberfeminismo com as teorias de Plant (1999), Haraway(2013), e os estudos de violência de gênero com Badinter (2005), Sontag (2003) e Žižek (2014), entre outros, dada a complexidade do tema.


Palavras-chave


Arte; Comics; mass media; Tecnologia; Gênero; Violência;

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