meistudies, 2º Congresso Ibero-americano sobre Ecologia dos Meios - Mulher e Gênero no Ecossistema Midiático

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Transformações no ecossistema midiático e uma possível ressignificação do colunismo a partir de uma análise da narrativa da jornalista Eliane Brum em El País
Jaqueline Frantz de Lara Gomes, Fabiana Piccinin

Última alteração: 2020-03-23

Resumo


As transformações no ecossistema midiático se acentuam no contemporâneo, indicando, entre outras, a emergência de narrativas marcadas pelas subjetividades e evidências de um eu que narra. Essa mudança reconfigura a prática jornalística própria da Modernidade, assentada na ideia de um eu que narra um real enquanto espelho da realidade, pautado nos ideais da objetividade e imparcialidade. Para Resende (2005), o jornalismo moderno incorporou o ideal modernista de construir o progresso pela via da ordem, passando a conferir competência e perícia nesse fazer ao profissional capaz de manter distanciamento e assepsia do fato narrado. Assim, era preciso, até então, dissimular as marcas do “eu” daquele que narra a história (Sodré, 2009). No entanto, a relativização das certezas e das grandes narrativas do contemporâneo vão produzir relativizações nas concepções de verdade absoluta, de objetividade, especialmente num tempo em que nem mesmo o jornalista é mais o narrador exclusivo dos fatos do mundo. Neste contexto em que profissionais e cidadãos comuns produzem e ofertam informações a qualquer tempo, tornando-as públicas na ambiência da internet, nossa proposta é lançar uma reflexão para uma possível ressignificação do gênero opinativo no jornalismo a partir do colunismo. Embora o espaço reservado para a opinião nos jornais seja aquele em que a subjetividade é permitida, o objetivo é discutir estruturas narrativas de diferenciação por meio da valorização da interpretação daquele que narra, em paralelo ao conteúdo contextualizado e informativo já observado em uma análise exploratória, próprias deste tempo. Queremos destacar como a atividade no campo do jornalismo é afetada pelo conjunto de transformações oportunizadas pela Pós-modernidade e, especialmente, como estas incidem na questão da narrativa e da credibilidade dos conteúdos. Entendemos que o campo do jornalismo é impactado pela crise da representação, uma vez que o abalo das orientações de inspiração positivista atinge as narrativas jornalísticas (Figueiredo, 2012), explicitando que o narrar é sempre uma construção e, portanto, uma eleição do que e como contar. Aludimos, assim, ao conceito da Pós-verdade (Dunker, 2018) segundo o qual, junto com a retirada da exclusividade dos jornalistas em periciar a informação e publicá-las, o contemporâneo é marcado por um tempo em que fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. A isso, soma-se o fato da impossibilidade das narrativas jornalísticas serem o “espelho do real” (Sodré, 2009; Traquina, 2005), em acordo com Resende (2009, p. 39) ao afirmar que é inviável o isolamento, por parte do jornalista em sua produção, uma vez que estes “são personagens do texto, participam da cena sem que haja qualquer interferência no fato propriamente dito (...)”. O mesmo entende Motta (2009, p. 12), ao colocar que a ideia da narrativa jornalística como construção da realidade oferece ao leitor marcas subjetivas no texto e, desta forma, uma construção de “verdades” em vez de “verdade absoluta” pregada pela objetividade. Originalmente, a diferenciação dos gêneros se dá justamente pela separação da informação, da opinião e da interpretação, entre outros formatos (Marques de Melo, 2010). Com o estudo, além da mescla de gêneros em um único espaço, podemos evidenciar a aposta na identidade do jornalista como aquele que dá a conhecer os fatos. O que leva a questionar que características narrativas assume a coluna no jornalismo contemporâneo, que mantém o princípio da objetividade por propor a análise dos fatos em combinação com uma perspectiva interpretativa. Ou seja, cabe perguntar qual a anatomia da coluna no jornalismo contemporâneo, um gênero tradicionalmente mais comprometido com as subjetividades, buscando entender como se estrutura sua narrativa e que lugar cabe a ela no ecossistema jornalístico, a partir da presença mais evidenciada das subjetividades no jornalismo em geral. Em acordo com a temática do evento, a investigação será pela análise de narrativas da colunista Eliane Brum no El País, considerando a hipótese de ser este um espaço de referência para os leitores, assinado por uma mulher jornalista, legitimada pela formação e por anos de carreira. Por assim dizer, pretendemos alcançar pistas de um redesenho do colunismo e, dessa forma, do gênero opinativo, por meio da interpretação daquele que narra como fator de credibilidade do dito, porque avalizado para tal, aliado à entrega de um conteúdo que se mostra aprofundado e contextualizado.

 


Palavras-chave


Jornalismo; Colunismo; Interpretação.

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