meistudies, 2º Congresso Ibero-americano sobre Ecologia dos Meios - Mulher e Gênero no Ecossistema Midiático

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Reflexões sobre as inter-relações entre Comunicação, Movimentos Feministas e Organizações
Tainah Schuindt Ferrari Veras, Cassiana Anunciata Caglioni

Última alteração: 2020-03-11

Resumo


O movimento feminista possui uma natureza plural congregando pautas, posicionamentos e narrativas para que direitos à liberdade, à educação, à participação política, à segurança, às escolhas sexuais, à expressão de pensamentos, entre outros sejam percebidos e garantidos às mulheres.

Mesmo não havendo uma definição precisa sobre o movimento, tampouco mandamentos gerais, trata-se de um conjunto de processos de ação e disputa política que ocorre de forma viva (Cardoso, 2018) e auto-organizada, lutando contra o controle, a violência e a opressão a que estão sujeitas as mulheres em diferentes âmbitos, e que costumam ser vistos de forma naturalizada.

Beauvoir (1970) destaca que o entendimento da mulher como um ser submisso e inferior foi construído por processos sociais e históricos convenientemente forjados e disseminados pelos homens há milênios, mas isso não significa que tal condição seja imutável.

Para transformar essa realidade, é necessário fortalecer a autonomia, a consciência e o poder de escolha, como defende Adichie (2015). Para a autora, a forma com que a sociedade está estruturada prescreve como a mulher deve ser, ao invés de dar a oportunidade dela refletir e reconhecer quem é, definindo suas necessidades e tomando decisões políticas criticamente.

A valorização do pensamento crítico também é exaltada por Pinto (2010) quando a autora reforça que uma característica peculiar do movimento feminista é que ele produz suas próprias reflexões, e as participantes costumam conectar ações de militância com a estruturação de teorias e a criação de vocábulos que embasem as lutas cotidianas, descontruindo com argumentos sólidos discursos de supremacia masculina que costumeiramente são vistos como verdades universais pouco questionáveis.

Entende-se, a partir dessa breve contextualização, que o aprofundamento de estudos sobre o movimento feminista pode contribuir para transformar universos que costumam ser cercados de discursos sexistas e excludentes, como é o caso do universo das organizações.

A pesquisa objetiva destacar, por meio de análise indutiva e interpretativa, algumas contribuições que o movimento feminista pode trazer às práticas organizacionais, enfatizando especialmente caminhos no âmbito da comunicação.

Afinal, acredita-se que a comunicação nas empresas pode protagonizar espaços de transformações pessoais, coletivas e de paradigmas por meio das trocas materiais e simbólicas, do diálogo e do compartilhamento de visões distintas, assumindo, alinhado com o que defendem Lima e Bastos (2012), que o olhar organizacional não deve estar na distinção de polos e no antagonismo entre as pessoas, mas sim nas relações estabelecidas no dia a dia.

Adicionalmente, entende-se que a presente pesquisa é relevante porque, como afirma Belle (2001), uma empresa foi feita como um fenômeno para dar lugar e garantir o poder aos homens, e, portanto, há o desafio e a necessidade de abrir espaço para a construção de uma nova identidade social. Ainda segundo a autora, as organizações buscam mascarar a violência, as diferenças e as desigualdades entre as pessoas criando um discurso de valorização da harmonia, do consenso e da estabilidade como normas para todos. Nessa ânsia por uma aparente universalização de posicionamentos e discursos, cria-se um falso caráter de igualdade e as singularidades deixam de ser reconhecidas e valorizadas, culminando no desrespeito às diferenças.

Entre os principais resultados deste estudo, destaca-se que os preceitos do movimento feminista podem contribuir com alternativas às formas de gestão e de comunicação centralizadoras, homogeneizantes e hierárquicas das empresas, instaurando maneiras mais plurais, inclusivas e auto-organizadas de agir. Além disso, a iniciativa de descontruir paradoxos excludentes e ampliar a capacidade de reflexão, problematização, diálogo e transformação individual e coletiva pode estimular que as pessoas da organização se perguntem por que determinadas estruturas e situações preconceituosas são popularizadas e que projeto de sociedade a empresa está construindo, fomentando leituras de mundo mais críticas, humanizadas e justas.

 

Referências

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. (2015). Sejamos todos feministas. São Paulo: Companhia das Letras.

BEAUVOIR, Simone. (1970). O segundo sexo: Fatos e Mitos. São Paulo: Difusão Européia do Livro.

BELLE, Françoise. Executivas: quais as diferenças na diferença? (2001). In: CHANLAT, Jean François. O indivíduo na organização: dimensões esquecidas. (p. 196-231). Vol. II. São Paulo: Atlas.

CARDOSO, Bia. (2018).Márcia Tiburi e o feminismo ético-político. Recuperado de  https://blogueirasfeministas.com/2018/02/05/marcia-tiburi-e-o-feminismo-etico politico/#more-23280.

LIMA, Fábia Pereira.; BASTOS, Fernanda Oliveira Silva. (2012). Reflexões sobre o objeto da Comunicação no contexto organizacional. In: OLIVEIRA, Ivone Lourdes; LIMA; Fábia Pereira (Org.). Propostas conceituais para a Comunicação no contexto organizacional. (p. 107-123). São Caetano do Sul: Difusão.

PINTO, Céli Regina Jardim. (2010). Feminismo, História e Poder. Revista Sociologia Política. 18 (36), 15-23.



Palavras-chave


feminismo; organização; comunicação.

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