meistudies, 2º Congresso Ibero-americano sobre Ecologia dos Meios - Mulher e Gênero no Ecossistema Midiático

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Escrevivências Decoloniais: a experiência do documentário-ensaio para um discurso militante e decolonial.
Paula Simone Busko

Última alteração: 2020-03-25

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)

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Este trabalho é parte de uma pesquisa de doutoramento em que o ponto de partida é o lugar da fala de mulheres que contam a experiência do viver valorizando a fala das minorias. Mulheres que contam suas histórias e lutas através de um documentário-ensaio audiovisual que são chamadas de escrevivências: formas de dizer algo entre o vivido e o falado e que são decoloniais. O dizer decolonial está presente nas vozes de mulheres que se calam e que se manifestam no viver de seu cotidiano, privilegiando “o fragmento sobre a totalidade”. É como dar vez “às versões, mínimas, fragmentárias de vidas comuns, de pequenas vidas de personagens em cujos percursos se conjugam derrotas advindas de sua condição social, racial e gênero” (EVARISTO, 2017, p. 187). E como escrevivências não deixa de ser um tipo de discurso, nesse sentido, “o discurso contribui para construir as relações sociais entre as pessoas, [...] para a construção de sistemas de conhecimento e crença” (FAIRCLOUGH, 2016, p. 95).

 

Quilombolas e indígenas do Vale do Ribeira (SP) ao contar suas lutas pela defesa de seus territórios apontam que certo feminismo está na base destes discursos militantes. As escrevivências destas mulheres - como uma forma de constituir discursos audiovisuais - onde o sujeito “é o senhor de seu dizer” (FAIRCLOUGH, 2016) caracterizam um trabalho de cunho experimental em que a criação de um documentário-ensaio aponta para a constituição de um discurso não totalitário dos sujeitos sobre a vida, o trabalho, as relações familiares e o feminismo agroecológico. Elas carregam uma ancestralidade latente e um dizer, um saber e um fazer característicos daquela terra. Algo que fora repassado de geração e geração e que, sem o conhecimento de livros ou da ajuda de “expertos brancos” constituíram um modo de vida e uma maneira de ver e sentir o meio familiar e sua gente.

 

O audiovisual é um modo de dizer, constitui-se de uma linguagem e um discurso que existe neste lugar e que demonstra uma dinâmica ao visibilizar a fala do oprimido, que é a mulher, que é negra, que é indígena, que é minoria, trabalhadora rural. Um discurso por si só já é persuasivo e é um movimento político. Associado a um meio de comunicação, um discurso tem condições de negar, criticar, questionar, reformular ou simplesmente repassar em uma linguagem mais acessível os diversos discursos produzidos pela ciência em várias esferas sociais (ORLANDI, 2003). Por isso, estas escrevivências contadas pela experiência do audiovisual têm o intuito de ecoar uma denúncia contra a permanência histórica de um privilégio da pronúncia de palavras como subalterno, outro, império, colonial, para transformá-las em palavras como memória, igualdade, escolha, coletivo, ancestralidade e liberdade.

 

A produção de um documentário sobre os modos de vida das pessoas, do fazer e do ser visibilizam maneiras contemporâneas de intermediar os conhecimentos ou representações de mundo, presente em nossas práticas sociais cotidianas (FERRAZ e FUSARI, 1992). Através de uma metodologia decolonial presente neste trabalho, objetiva-se valorizar a histórias locais solapadas pelo processo colonial; reconhecer a diversidade como um processo emancipatório; decolonizar e ouvir a voz das identidades fraccionadas (OCAÑA, 2018).

 

Argumenta-se que certa teoria feminista está presente e tem como base investigações militantes que planteam entre si duas vias complementárias: desenvolvem análises e diagnósticos em relação da opressão das mulheres através da história, da cultura e das sociedades, que permitem reflexionar e articular uma crítica emancipatória de normas e valores de nossa sociedade e cultura atual. A segunda via está intrinsicamente ligada à primeira, mas projeta construir novos modos de nos relacionar entre nós com a natureza e o futuro (PADILLA e GUZMÁN, 2018, p. 18).

 

Corrobora-se a busca pelo reflexivo e por sentidos que possam ser (re) produzidos, onde a fala das minorias se mistura a fala do pesquisador. É a experimentação da linguagem escrita pelo audiovisual em que os sujeitos do discurso tomam posicionamento e estabelecem um processo decolonial (WALSH, 2012). Por meio das escrevivências audiovisuais estas mulheres evidenciam muitos exemplos de uma prática social que forma um coletivo de luta e resistência. O alcance do audiovisual abre um espaço para que esta mulher que é real e que é território realize práticas sociais agroecológicas que talvez não existissem se não fosse por elas.


Palavras-chave


Comunicação audiovisual; Decolonialidade; Gênero; Discurso franco-brasileiro.

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